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Socialismo morto e vivo

(a confusão entre socialismo e comunismo neste texto é algo ilustrativo. Qualquer dúvida, consulte sua enciclopédia favorita).

Socialistas me cansam.


Marx, espertamente cunhou o termo comunismo e capitalismo como meio de enaltecer suas ideias e depreciar as alheias:
- aqueles que são orientados pela comunidade
- aqueles que são orientados pelo capital

"Ah, vai pastar". Então eu poderia chamar os (parvos) socialistas de burristas, aqueles orientados por ideias burras e aqueles que defendem a liberdade econômica de liberalistas.

Viva a linguagem! Mais uma vez estou a contemplar como a linguagem impacta o que nós pensamos e nesse caso para criar
um apelo à emoção.

Aproveitando, vou dizer o que aconteceu com o socialismo:

O socialismo foi um conceito moldado nos últimos 100 anos, como uma resposta a um exacerbado otimismo no sistema vigente, na liberdade econômica em contraste a uma crescente apatia a situações cada vez pior dos mais pobres. Para a espécie humana, a empatia não é simplesmente uma característica lateral, sem pressão evolutiva. Pelo contrário, a empatia foi cunhada como parte central da nossa relação intra-espécie. Pelo mesmo motivo, a canalhice , a indiferença e a injustiça são entojados com todas as forças de nossos genes.

Elucidar quando essas coisas acontecem é importante. O socialismo não só tenta elucidar esses problemas como propõe um ideal de sociedade. Essa é sua primeira complicação: há todo um campo da filosofia dedicado a responder o que seria a sociedade ideal e as teorias socialistas não são um consenso, especialmente a muito liberalistas. Como um estado anárquico e harmônico poderia emergir de um conceito tão debatível?

O segundo e igualmente sério problema do socialismo é que seu discurso altruísta é utilizado para promover ideias bem egoístas:
corporativismo, politicagens (loteamento de estatais, autarquias e instituições públicas) e a manutenção de uma elite social (políticos do partido). Felizmente para o socialismo, e infelizmente para nós, esse problema enfraquece o que seria seu ideal mas fortalece seu "movimento" até o ponto que o terceiro problema se torna gritante.

Bom, o terceiro problema é a ineficiência. Quando o estado tenta corrigir diferenças sociais, ele serve com um balde furado que tira de um lado para abastecer outro, mas deixa um rastro de desperdício no caminho. O balde furado também tem algumas implicações filosóficas como aponta o filósofo Robert Nozick. Assumir que a distribuição que segue da relação (comercial) entre homens livres não preserva a justiça, significa que o estado com liberdade econômica estará continuamente num estado de injustiça (e não é possível ser justo e livre… portanto, uma conclusão anti-anarquista).

Esses problemas são tanto mais agudos, quanto obtuso for a visão política das pessoas. Para aqueles que pensam que o mundo tem apenas duas cores, o socialismo continuará a ser o paraíso ou inferno sem oportunidades para melhorias. Isso nos leva a seguinte conclusão.

O Socialismo está morto. Vida longa ao socialismo.


O comunismo (não o ideal comunista mas o estado ditador ao intitulado comunista), irmão louco do socialismo, morreu durante o Outubro Negro, ou quando o muro caiu, ou quando começou a Perestroika, não importa.
A essa altura, o socialismo e o ideal comunista já estavam mortos e enterrados, muito tempo mesmo antes de Stalin subir ao poder. Morreram pouco depois que foram justificados pela dicotomia da luta de classes (rica dominante vs pobre dominada). O problema nisso é a forte discretização maniqueísta do mundo. Uma ideia tão fraca que nasce quasi morta.

O socialismo nasceu com essas feições tortas: vitimismo, maniqueísmo e pessimismo. Muitas pessoas até hoje são compelidas por essas ideias. O discurso do socialismo tosco é esse: o sistema atual é falido, assim como suas instituições corruptas; não existe como a sociedade no modelo atual dar certo porque suas bases são podres (o estado é governado pela elite cujo principal interesse é se manter no poder). A elite oprime o proletariado a seu bel prazer enquanto o sistema econômico força a concentração de capital e por tanto a divisão de classes para níveis cada vez maiores. A pobreza em cada país é acentuada pela ação de seus capitalistas enquanto que a pobreza de países é fruto da exploração de países ricos.

Uma rápida digressão… Interessante quando os números são usados como provas para o vitimismo, a falácia conhecida como causa falsa (cum hoc ergo propter hoc), nos faz lembrar uma máxima científica: "correlação não implica em causa". Segundo Daniel Cerqueira, diretor da 4ª edição do Boletim de Análise Político-Institucional. mais de 60 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil e há um forte viés de cor e condição social nessas mortes: "Numa proporção 135% maior do que os não-negros. Enquanto a taxa de homicídios de negros é de 36,5 por 100 mil habitantes, no caso de brancos, a relação é de 15,5 por 100 mil habitantes".

O Boletim de Análise Político-Institucional não informa que esse forte viés de cor precisa mesmo considerar a seguinte coincidência: a maioria das mortes ocorrerem nas regiões periféricas das grandes metrópoles; enquanto que na periferia a taxa de homicídio é de 140 para 100 mil habitantes, no centro das grandes cidades é de 14 para cada 100 mil habitantes. O que não seria diria nada, se pardos e negros nos bairros de periferia não fossem 70% de sua população. Os fatos ainda que não favoreçam os negros evidenciam como os números podem ser torturados. Nos números apresentados por Daniel Cerqueira, a condição social é uma justificativa muito mais relevante do que a cor da pele. (Ah, desculpe, “isso não tem nada a ver com socialismo”, foi apenas uma digressão sobre o discurso vitimista).

Sobre a injustiça do positivismo jurídico


("tá bom", eu não vou falar o que é positivismo jurídico… fica a dica: positivismo jurídico vs justiça social)

Ok. Vamos olhar a dialética sobre a formulação das leis (qual nível de mudança são permitidas no sistema atual). As leis são elaboradas pela a concordância de partes. Enquanto que algumas escolas de pensamento supõe um estado sem lei, onde homens livres decidem pela criação e aplicação de leis (surgimento do estado), uma certa corrente de pensamento tenta desmoralizar “desmascarando a real racionalidade” delas como sendo oriundas de um sistema político já injusto e que conserva essa injustiça. “A quem servem as leis?” é o mote. As leis criadas pelos reis, serviam a eles. Assim, as leis criadas pelos homens brancos ricos serviam aos homens brancos e ricos.

Mas como as concessões ocorreram? Como as leis foram se tornando cada vez mais democráticas? (ignorar que não houve evolução é como ignorar os avanços científicos. Os fatos, números estão descritos em abundância por todos os lados e serão preguiçosamente omitidos aqui). Ora, segundo essas correntes, o poder foi escoando da mão dos poderosos aos poucos, porque para permanecerem no poder eles precisavam fazer concessões. “Mas as leis afirmam o que a prática política nega”. Dessa forma, sutilmente nada se muda. Esse tipo de controle é ainda mais poderoso do que o direto porque isso emudece o discurso opositor. A questão é que esse parágrafo ilustra uma das paranoias socialistas.

A “classe rica dominante” ao contrário do que sugere o economista barbudo, não é uma classe homogênea, nem um bloco sólido de opiniões concisas. Na verdade, é um mero corte da população baseado num critério econômico. Seus membros rivalizam entre si, e suas posições são algumas vezes contraditórias. A bem da verdade, o barbudo diz muito mais do que isso: ele descreve um sistema e seu maquinário que levam a sociedade a situação mais extrema de maior concentração de renda e poder. Mas concentremos na estratificação da sociedade por um momento. Tomemos agora, como exemplo, a elite americana pré-guerra da secessão. A elite do sul divergia fortemente da elite do norte a ponto dessas diferenças precisarem ser decidas em guerra (por exemplo, um lado queria a manutenção da escravatura e o outro a abolição). Essas divergências ocorrem ainda mais no indivíduo cada qual com sua agenda, mantendo seu conjunto de crenças, opiniões, desejos, valores, etc.

A ideia de uma reunião entre fazendeiros, industriais, artistas, por exemplo, para decidir como manter o povo burro e manipulável é boçal. Ao industrial, não interessa uma população deseducada, improdutiva, pobre. O artista também não será melhor remunerado por uma população pobre. O fazendeiro, poderia ser o único a ganhar ainda que muito marginalmente com isso. Além disso, não é o poder (absoluto) que escoa da mão dos poderosos. O poder emana das pessoas. A medida que as pessoas mudam, o epicentro do poder muda, e as leis mudam para acomodar essas mudanças. O poder não escorre… novos forças surgem (aumentando a produção), e assim, muda-se o epicentro do poder. O rico não perde seu poder absoluto, mas o poder relativo ao corpus.

As leis não são apenas a resultante entre os interesses egoístas entre as forças de uma nação. O jogo da formulação de leis compreende várias interações, e complexidades em oposição aos jogos estáticos, de soma zero, de conhecimento completo, etc. Nada leva a crer que a estratégia dominante seja o de minimizar o ganho dos demais para tentar maximizar o próprio, dado que o jogo é por vezes cooperativo e não competitivo (as pessoas competem pelos recursos do estado, mas cooperaram entre si para criar objetos de seu bem estar… A empatia nos leva a considerar a situação do próximo e nos permite analisar como minimizar os riscos de estar nas situações infelizes. Homo homini lupus( o homem lobo do homem), a paranoia que insinua que as pessoas são "naturalmente inimigas" vem sendo contestada por estudos da antropologia, sociobiologia e primatologia, como investigações sobre a origem da moralidade (Frans de Waal). (Não que não existam lobos morando entre ovelhas, mas essa seria a exceção e não a regra). Em última análise, nas sociedades democráticas, as leis requerem o suporte de eleitores, que não julgam se se as leis são apenas vantajosas economicamente para elas, mas se elas são boas. O peso para questão econômica e a questão moral podem ser pessoais mas são não nulas, do contrário, qualquer tentativa de convencer a importância de uma lei usuária apenas de um tipo de discurso: apelo econômico ou apelo a moralidade.

Não existe nada de errado em apontar as falhas do mercado sem regulações, ou de leis "capitalistas" injustas, etc. Mas acreditar na conspiração do homem branco rico querendo oprimir a todos através do sistema que lhe garante uma posição fixa numa pirâmide social ad eternum é uma falácia do espantalho aos distorcer falhas corrigíveis para problemas irreparáveis (dentro próprio sistema). A estratificação da sociedade não foi, por exemplo uma invenção capitalista. Qual a mobilidade social do sistema asiático, do sistema escravista, do feudalismo? Pois, a liberdade econômica, não é a causa de mazelas como essa e pode sim ser limitada por um estado com ações afirmativas para corrigir injustiças. Os maiores avanços no bem estar social são vistos nos países que tentaram essa abordagem. Entre um estado mínimo que deixa a mão invisível do mercado encontrar a solução e o equilíbrio de tudo, e um leviatã que detém tudo (fim da propriedade privada) e decide tudo (economia planificada), existem várias opções no meio. O pobre maniqueísta, vitimista, pessimista socialista não consegue enxergar isso. Que bom que já morreu.

As investigações de Marx e seus seguidores sobre possíveis problemas do capitalismo servirão como guia para uma classe infindável de pessoas: os cínicos, os desavisados, os bem intencionados, os sérios, os intelectuais de esquerda, os intelectuais de direita, os pseudo-intelectuais, etc, enfim, todos aqueles que estão dispostos a ouvir as críticas ao capitalismo. Apenas para citar algumas interessantes ideias: o fetiche do dinheiro, as barreiras de entradas cada vez maiores, o colapso do lucro, o monopsônio do empregador (monopolista dos meios de produção), a teoria da mais valia. Marx, assim como outros socialista pareciam não estar mal-intencionados e mostravam sincera preocupação com o bem estar-social. A preocupação com os “oprimidos”, principalmente a ideia de promover um sistema "justo" é certamente perpétua. A relação do socialismo com as ideias desse último parágrafo nos dá pista que ele continuará vivo bom um bom tempo. Sendo assim, que bom.

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